Fast Fiction

O palco dele acabou com ele

Davi arrancou o fone de uma auxiliar e apontou para Lia com o cabo enrolado no dedo. “Você fica longe da mesa principal. Já falei. Confere pulseira, segura fila, faz qualquer coisa útil.” A caixa lateral devolveu um estalo seco, duas vezes, e o telão no lado do palco piscou em preto. Lia já estava com a mão no ar. “Não é caixa. O retorno da entrada tá voltando pelo patch errado.” Davi nem virou inteiro para ela; cortou com um riso de canto, para que os carregadores, a recepcionista e Rafa ouvissem. “Olha a audácia. Três meses ajudando e agora quer dar laudo.”

A lateral de ensaio fervia como panela tampada. Pela fresta da cortina, dava para ver a primeira fileira de cadeiras de patrocinador, o logo da marca de cosmético aceso no painel e, mais atrás, o corredor de entrada já cheio de gente com celular na mão. No balcão estreito ao lado da console, fita crepe, copos de café amassados e um chá já frio tinham deixado uma marca circular na madeira preta. Lia sentia o peso do turno no ombro, a manga amarrotada do moletom presa no pulso, o cartão de transporte roçando gasto dentro da bolsa. Tinha vindo da Brasilândia em dois ônibus e metrô para estar ali às oito. Davi chegara depois do almoço, camisa passada, crachá virado para fora como medalha.

“Se der ruído na entrada da Mirela, o contrato toma multa”, Lia disse, mais baixo, tentando não entregar a pressa. “O patch da cantora tá no quatro, mas a cena chama o sete. Você mexeu no roteamento de novo.” “Eu mexi no que precisava.” Davi puxou o tablet da mesa e falou alto, para seu Antunes, o produtor da casa, que vinha mancando do corredor. “Ela se embanana com nome de canal e quer culpar equipamento. Normal. É apoio.”

A injustiça veio inteira porque ninguém tinha tempo de ser delicado. Seu Antunes olhou primeiro para Davi, não para a tela. “Resolve logo. A cliente já perguntou duas vezes se a entrada tá pronta.” Davi apontou para Lia sem olhar. “Leva ela pra porta de serviço, Antunes. Se eu precisar de água ou cabo, chamo.” Foi ali que a primeira rachadura apareceu: o LED do canal sete subiu sozinho, mudo, como um batimento fantasma, e caiu. Lia deu um passo, Rafa viu, e também viu Davi empurrar de leve o ombro dela para tirá-la da frente da console.

Rafa engoliu o “ô” na metade. Era monitor de palco, convivia com os dois havia meses, almoço em quentinha, piada ruim, correria de setor de serviços onde todo mundo se esbarrava mais do que em família. Sabia quem fechava o caminhão às duas da manhã e quem aparecia na foto. “Davi”, ele disse, “o sete tá acordando sem sinal.” “Porque você tá respirando em cima dele”, Davi respondeu. “Vai pra coxia e confere pedestal.”

A cliente apareceu antes que a humilhação terminasse. Terno claro, salto miúdo, pulseira de evento no punho, rosto já brilhando de ansiedade. “Quem responde pelo som da entrada da artista?” A pergunta saiu para o ar, mas Davi pegou para si com uma passada à frente. “Eu.” Atrás dela, duas moças do marketing fitavam o palco como se um atraso pudesse sujar o post antes de existir. Mirela, a cantora contratada para o lançamento, testou um “alô” do outro lado da cortina, e o retorno veio com um chiado agudo que fez a recepcionista levar a mão ao ouvido.

Lia falou no mesmo segundo. “É o patch.” Davi falou por cima. “É microfone sem fio.” A cliente virou o rosto entre os dois, irritada por precisar escolher. Davi aproveitou. “Ela tá no apoio de operação. Às vezes acha que tudo é console.” E então fez pior: “Rafa, pega o microfone da Mirela e entrega pra Lia segurar. Se der problema de novo, a cliente já vê que foi manuseio.”

Era sujo demais para passar despercebido. Até a recepcionista ergueu a cabeça. Lia recebeu o microfone por instinto, frio na mão, e sentiu aquela velha vergonha do trabalho mal pago: a que vem quando te usam como lixeira de risco na frente de quem manda nota e pagamento. Só que o canal sete no medidor subiu de novo sem voz nenhuma. Ela ergueu o microfone, desligado. “Tá vendo? Nem ligado ele tá.” O led dançou outra vez, fino, insistente. Material. Visível. A cliente franziu a testa.

“Temos quatro minutos”, ela disse, secando a própria ansiedade. “Eu não quero saber de disputa. Quero ver funcionando.” “Funciona”, Davi garantiu, já mexendo em três telas ao mesmo tempo para parecer dono. “Mirela, mais uma passagem!” Do palco veio o “alô, um, dois”. O sete abriu mudo e o quatro, onde devia estar a voz, morreu inteiro. O chiado lambeu a cortina. Lia soltou o microfone no balcão. “Você espelhou o retorno no grupo errado. Tirou o quatro da cena de entrada e jogou o sete no master. É por isso que o telão pisca junto: você amarrou automação no canal errado.”

“Chega.” Davi estendeu o braço na frente dela, barrando acesso à console como quem barra porta de elevador para subalterno. “Você não toca.” A cliente já estava vendo demais para aceitar peito estufado como resposta. “Então faz um teste agora”, ela disse. “Ao vivo. Aqui. Na minha frente.” O silêncio que se abriu não foi bonito nem total; teve rodinha de cabo batendo no chão, alguém tossindo na coxia, o ventilador do rack vibrando. Davi sorriu como se tivesse pedido fácil. “Claro.” Só que ele foi no ganho do microfone. Depois no equalizador. Depois pediu para Mirela repetir. O problema voltou igual, na mesma hora, com a mesma cara. O sete pulando vazio, o quatro morto, o telão apagando por um suspiro. A cliente perdeu o verniz. “Isso não é microfone.”

Lia já tinha visto o caminho. Não pediu licença de novo. Passou por baixo do braço de Davi, apoiou dois dedos no canto da console e mirou a tela de roteamento. “Cena de entrada”, disse, para ninguém e para todos. “Quatro saiu do vocal e foi jogado no VCA errado.” Davi veio com a mão rápido, para fechar a página, mas Rafa segurou o pulso dele por um instante seco. Pequeno. Suficiente. Lia tocou uma única coluna, arrastou o envio de volta, desarmou o vínculo do sete com a automação de vídeo e bateu no talkback. “Mirela, fala.” “Alô.” A voz saiu limpa no quatro. O telão ficou aceso. O sete, enfim, quieto.

Ninguém teve como fingir que não viu. O técnico de luz, que estava na escada, desceu um degrau só para olhar a mesa. A cliente deu um passo para mais perto da console, não de Davi. Seu Antunes limpou a testa com o dorso da mão. Davi tentou rir de novo, só que atrasado. “Eu ia fazer isso. Ela só foi mais afobada.” “Então por que não fez?”, a cliente cortou. Ele abriu a boca e fechou. Lia não ajudou. Ajustou o retorno de Mirela com duas mexidas curtas, conferiu o medidor e devolveu o talkback: “Pode caminhar até a marca.” Do outro lado da cortina, a cantora atravessou a entrada inteira, e a voz acompanhou limpa, sem surto, sem queda.

A autoridade mudou de direção num detalhe quase cruel: a próxima pergunta veio para Lia. “Quanto tempo para travar a cena?” a cliente perguntou. “Noventa segundos se ninguém mais mexer”, ela respondeu. “Precisa de quem?” “Rafa na coxia. Antunes segura passagem. E ninguém troca patch sem me falar.” “Perfeito.” Davi tentou recuperar o centro com pressa. “Eu continuo na operação. Ela só corrigiu um vínculo.” Lia olhou para a tela, não para ele. “Se você tocar de novo na automação, cai de novo na entrada.”

Seu Antunes, homem de casa, homem de chave e aluguel, fez a segunda rachadura virar regra. Tirou o crachá provisório de acesso da mesa — o de operação ativa, não o de circulação — e colocou ao lado da mão de Lia. “Quem trava entrada é quem sabe o caminho.” Não foi discurso. Foi objeto mudando de dono à vista de todo mundo. Davi deu um passo na frente, vermelho de pescoço. “Antunes, você tá me desautorizando por causa de uma auxiliar?” “Eu tô tentando abrir a casa sem passar vergonha”, Antunes respondeu, seco. “Se souber, fala qual canal alimenta o vídeo de entrada.” Davi lançou um número sem convicção. Errado. Nem Rafa precisou reagir; o erro ficou pendurado sozinho.

No fone, a contagem veio da produção de palco. “Dois minutos. Portas internas abrindo. Mirela em posição.” Pela fresta, a plateia corporativa ajeitou blazer, celular, sorriso. O locutor testou a última frase de chamada. A casa de shows na Vila Leopoldina tinha aquele cheiro de tecido aquecido, poeira de case e café ruim de corredor. Lia sentiu o coração disparar, mas as mãos vieram firmes. Era pior quando ela não podia tocar; tocando, o corpo lembrava antes da cabeça.

Davi tentou o último bote na surdina, o mais baixo e mais vil. Inclinou-se para a cliente como se protegesse o evento de uma loucura. “Se der errado agora, foi decisão sua de colocar uma menina de apoio na entrada principal.” Lia ouviu. Não respondeu com palavra. A tela piscou de novo — não defeito, comando: a cena armada aguardando disparo. Davi, aflito, ainda alcançou um cabo de rede no rack lateral, tentando religar o patch improvisado que tinha feito para se salvar. Quando encaixou, o canal de retorno sumiu inteiro por um segundo. O locutor no PA já anunciou o nome da marca. “Em dez…”

“Solta esse cabo.” A voz de Lia saiu baixa e acabou com a discussão porque já vinha junto do movimento. Ela puxou o crachá ativo para si, encaixou no terminal lateral da mesa, entrou no perfil de operador principal e assumiu a sessão que Davi deixara aberta pela metade. Na tela, o nome dele sumiu da barra de acesso. O dela tomou o canto superior. Não era bonito; era definitivo. A cliente viu. Antunes viu. Rafa, na coxia, ouviu Lia no retorno: “Marca da Mirela na fita branca. Quando eu chamar, abre.”

“Cinco.” Davi estendeu a mão, agora sem mando nenhum, só urgência humilhada. “Você vai derrubar o lançamento.” Lia já estava no trabalho. Desarmou o patch morto, travou o roteamento correto, separou o retorno da automação de vídeo e pousou dois dedos no slider da cena de entrada. O locutor respirou a sílaba final do texto. A cortina lateral tremia com o primeiro passo de Mirela esperando o chamado. “Quatro.” No visor, níveis estáveis. No palco, o painel aceso. “Três.” Lia abriu o talkback: “Agora.” Rafa liberou a passagem. Mirela entrou na luz, vestido prata cortando a sombra. “Dois.” Lia empurrou o slider com firmeza até a marca. A trilha subiu limpa, o vídeo abriu no tempo exato, a voz da cantora entrou sem chiado, o retorno veio redondo, e o telão não piscou nem por misericórdia. Davi, ao lado, ainda tentou tocar num auxiliar vazio, mas não havia mais nada dele comandando coisa nenhuma. “Um.” A cliente nem respirava do mesmo jeito; estava com os olhos pregados na mesa, não no palco. Lia fez a segunda correção ao vivo quando Mirela avançou mais um passo e pediu mais retorno com um gesto mínimo de mão. Um toque no envio. Resposta imediata. Sem surto. Sem queda. Sem pedido para repetir.

A trilha bateu no primeiro pico da entrada e encheu a lateral inteira. Antunes, que tinha passado a noite vendendo a casa por telefone, ficou imóvel com o rádio encostado no peito. O técnico de luz largou a escada para enxergar a tela. Davi procurou frase, explicação, culpado, qualquer lugar onde coubesse de pé, mas a mesa já tinha respondido por ele na frente de cliente, equipe e da fila que aplaudia do outro lado da cortina sem saber nome de ninguém.

Lia travou a cena, tirou a mão do botão de talkback e soltou devagar o slider. No brilho da console acesa, o canal principal subiu limpo até o pico, caiu macio para a faixa de trabalho e ficou lá, firme, enquanto a marca do chá frio ainda sombreava o canto do balcão. A mão dela deixou a mesa, e a tela seguiu aberta no nome dela.